Irmã Dulce: de ‘anjo bom da Bahia’ a santa no Vaticano

Com dois milagres reconhecidos pelo Vaticano, a freira baiana Irmã Dulce (1914-1992) foi canonizada neste domingo (13/10) pelo papa Francisco, tornando-se a primeira santa nascida no Brasil. Agora, ela passa a ser chamada Santa Dulce dos Pobres.

A solenidade ocorreu na praça de São Pedro, no Vaticano, em frente à basílica de mesmo nome e diante de milhares de fiéis, muitos brasileiros, e autoridades.

Como de praxe, a missa teve uma liturgia específica para canonizações.

A canonização – a confirmação final da Santa Sé para que um Beato seja declarado Santo -, é um processo complexo que requer a aprovação final do papa e acontece no Vaticano, diferentemente da beatificação, que pode ser no lugar de origem do religioso.

Além da Irmã Dulce, foram canonizados o britânico John Henry Newman, a italiana Giuseppina Vannini, a indiana Mariam Thresia Chiramel Mankidiyan e a suíça Marguerite Bays.

O processo de canonização da brasileira foi o terceiro mais rápido da história da Igreja Católica, atrás apenas do papa João Paulo 2º (1920-2005) e da Madre Teresa de Calcutá (1910-1997).

Autoridades brasileiras estavam entre os presentes na cerimônia. O Brasil foi representado pelo vice-presidente, o general Hamilton Mourão, depois que o presidente Jair Bolsonaro alegou problemas de agenda para não viajar a Roma.

Participaram da comitiva oficial um total de 14 pessoas, incluindo os presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, o procurador-geral da República, Augusto Aras, e o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM).

Ocupação do galinheiro em 1949
Image captionGalinheiro onde Irmã Dulce atendia doentes tornou-se uma associação de obras sociais

Aptidão para caridade

Conhecida como “anjo bom da Bahia”, Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes nasceu em 26 de maio de 1914, em Salvador. Filha de uma família de classe média, perdeu a mãe aos 7 anos, tendo sido criada pelo pai junto com mais quatro irmãos e irmãs.

Desde cedo, já demonstrava aptidão para a caridade e, ainda na adolescência, dava comida e fazia curativos em pessoas em situação de rua na porta de casa, em Nazaré, na região central da capital baiana.

Apaixonada por futebol e torcedora do Esporte Clube Ypiranga — time da classe popular e de enorme sucesso na Bahia no início do século XX —, Maria Rita formou-se no magistério em dezembro de 1932.

Dois meses depois, realizou seu grande sonho: entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, no Convento de Nossa Senhora do Carmo, em São Cristóvão (Sergipe).

Consagrada freira em agosto de 1933, adotou o nome de Irmã Dulce, em homenagem à sua mãe. Dali, retornou à cidade natal, onde construiu sua trajetória de dedicação aos mais pobres.

Em 1932, Irmã Dulce entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus

Em 1935, ela deu início a seu trabalho assistencial em comunidades carentes, sobretudo nos Alagados, conjunto de palafitas que havia na Baía de Todos os Santos, no bairro de Itapagipe, de perfil operário.

Após criar um posto médico para moradores da região, fundou em 1936 a União Operária São Francisco — primeira organização operária católica do Estado, que deu origem ao Círculo Operário da Bahia.

A partir de então, a freira passou a recolher doentes pelas ruas de Salvador, especialmente na região da Cidade Baixa. Durante mais de uma década, ocupou diversos espaços da cidade com estes enfermos, tendo de sair após sucessivas expulsões.

Imagem de Irmã Dulce
Image captionConsagrada freira em agosto de 1933, adotou o nome de Irmã Dulce, em homenagem à sua mãe

Do galinheiro ao hospital

Até que, em 1949, sem ter onde alojar 70 doentes, Irmã Dulce conseguiu autorização da sua superiora e ocupou um galinheiro ao lado do Convento Santo Antônio, do qual era integrante.

Sem pudor de pedir doações por todos os cantos da capital baiana, Irmã Dulce foi expandindo sua ocupação a partir do galinheiro e, em 1959, inaugurou no mesmo local a Associação Obras Sociais Irmã Dulce (Osid). No ano seguinte, já estava erguido o Albergue Santo Antônio — que anos depois daria lugar ao hospital de mesmo nome.

Franzina, mas cheia de energia, a freira batia em todas as portas — do pequeno comerciante ao grande empresário. Assim, criou relações nos mais diversos espectros sociais e políticos.

“Não entro na área política, não tenho tempo para me inteirar das implicações partidárias. Meu partido é a pobreza”, disse em certa ocasião.

Assim, conseguia manter entre os doadores das Osid nomes como o do empresário Mamede Paes Mendonça, do banqueiro Ângelo Calmon e dos ex-governadores da Bahia Lomanto Júnior, Juracy Magalhães e Antônio Carlos Magalhães.

O ex-presidente José Sarney, que assistiu à cerimônia deste domingo, também era seu fiel doador e, em 1988, chegou a indicar Irmã Dulce para o Prêmio Nobel da Paz.

A freira morreu no dia 13 de março de 1992, aos 77 anos, no mesmo quarto do Convento Santo Antônio em que dormiu por mais de cinco décadas.

O processo para sua canonização foi iniciado em 2000, oito anos após a morte. Com a confirmação de seu primeiro milagre – suas orações teriam feito cessar uma hemorragia em uma mulher do Sergipe após dar à luz seu segundo filho, Irmã Dulce foi beatificada em 2011, o primeiro passo para que se tornasse santa.

Neste ano, foi reconhecido seu segundo milagre – depois de 14 anos convivendo com uma cegueira causada por um glaucoma, um homem voltou a enxergar em 2014.

Papa Francisco
Image captionPapa Francisco canonizou cinco religiosos, incluindo Irmã Dulce

Atendimento gratuito

Hoje, a entidade criada por Irmã Dulce é um dos maiores organismos de saúde do Brasil e oferece atendimento 100% gratuito, mantendo-se por meio de repasses do Sistema Único de Saúde (SUS), convênios estatais, venda de produtos e doações de empresas e pessoas físicas.

Há, no entanto, uma discrepância entre a receita que chega pelos repasses do SUS e as despesas geradas pelos atendimentos. Por isso, somente em 2018, o balanço das Osid foi fechado com um prejuízo de aproximadamente R$ 11 milhões.

“O ano passado foi bem difícil. As doações são o que nos socorre e ameniza um pouco a situação”, diz Sérgio Lopes, assessor corporativo da entidade. Segundo ele, as doações correspondem a 5% da receita.

De janeiro a agosto deste ano, apontam os relatórios das Osid, o prejuízo da operação ficou em R$ 5,2 milhões, com estimativa de chegar perto de R$ 8 milhões até dezembro.

“Nossa expectativa é ir diminuindo gradativamente esse prejuízo com o aumento de repasses e doações, especialmente com a canonização. Já percebemos esse movimento após o anúncio do Vaticano. Tem gente que não pode doar dinheiro, mas oferece trabalho voluntário, prestação de serviços. Dizemos sempre que o maior milagre de Irmã Dulce é este complexo, que só fez crescer mesmo após sua morte.”

Anualmente, as Osid realizam cerca de 3,5 milhões de atendimentos ambulatoriais na Bahia, somando o complexo em Salvador e unidades públicas de saúde geridas pela organização no interior do Estado.

No local onde havia o antigo galinheiro, hoje fica uma praça de convivência do Hospital Santo Antônio, que realiza mais de 2 mil atendimentos por dia e 12 mil cirurgias anuais. Ali, as estruturas erguidas por Irmã Dulce seguem ativas ao lado de unidades recentes, como a de Alta Complexidade em Oncologia.

Neste mesmo complexo, trabalham 3 mil pessoas, incluindo 300 médicos, além de cerca de 300 voluntários.

Irmã Dulce será reconhecida como santa neste domingo

Após a canonização, ela se chamará Santa Dulce dos Pobres

Publicado em 12/10/2019 – 11:00 Por Gilberto Costa – Repórter da Agência Brasil  Brasília

Neste domingo (13), às 5h da manhã em Brasília (10h em Roma), a soteropolitana Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes (1914–1992), nominada como Irmã Dulce desde 1933, torna-se a primeira santa nascida no Brasil reconhecida pela Igreja Católica Apostólica Romana. Torna-se Santa Dulce dos Pobres.

A canonização ocorre nove anos após o colegiado de cardeais e bispos da Congregação para a Causa dos Santos, da Cúria Romana, atestar o primeiro milagre atribuído à Irmã Dulce descrito no processo de beatificação da religiosa iniciado pela Arquidiocese de São Salvador da Bahia. A decisão do colegiado é baseada em avaliação de peritos de saber científico (como médicos) e teólogos.

O milagre que levou à beatificação foi a intercessão da freira, a pedido de orações de um padre, para salvar a vida de uma mulher que deu à luz a um menino e estava desenganada por causa de uma hemorragia depois do parto, que os médicos não conseguiam conter. O caso ocorreu nove anos após a morte de Irmã Dulce (2001), em uma cidade do interior de Sergipe.

 Irmã Dulce
Irmã Dulce – Acervo Irmã Dulce

Para a canonização, a Constituição Apostólica exige a comprovação de um segundo milagre e semelhante ritual processual e comprobatório. A segunda graça, conforme publicado pela Arquidiocese de Salvador, foi a recuperação da visão do músico e maestro José Maurício Bragança Moreira, após 14 anos sem enxergar por causa do glaucoma.

“Eu fui paciente de glaucoma muito grave que me cegou durante 14 anos. No dia do milagre, 10 de dezembro de 2014, o meu coral ia cantar, mas a minha esposa nem me deixou sair de casa por causa do derrame que eu tive nos olhos devido a uma conjuntivite viral. Eu passei a noite sem conseguir dormir e por volta das 4h eu peguei a imagem de Irmã Dulce, que fica na cabeceira da minha cama, a coloquei nos meus olhos e pedi que ela aliviasse a minha dor”, descreve Moreira em relato publicado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

De acordo com o músico, após colocar o santinho impresso sobre os olhos, sentiu sono e adormeceu. “Quando eu acordei de manhã, a minha esposa me deu umas compressas de gelo e foi quando eu comecei a enxergar o gelo e a ver a minha mão, e aos poucos a visão foi voltando. O momento que começou o retorno da visão foi pouco tempo depois da oração. É um milagre”, afirma. Após o reconhecimento do milagre pela Igreja, o Papa Francisco anunciou a canonização de Irmã Dulce.

 Irmã Dulce
Irmã Dulce – Acervo Irmã Dulce

Vocação social

A vocação religiosa de Irmã Dulce é revelada ainda na adolescência sob influência de uma tia paterna. Ela tornou-se freira no começo da década de 1930 pela Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, em São Cristóvão (Sergipe).

Formada como professora, teve como primeira missão ensinar a crianças em colégio de sua congregação em Salvador. A vocação para as causas sociais teve início naquela década quando passou a prestar assistência à comunidade pobre de Alagados, e a participar da União Operária São Francisco.

Em 1937, funda o Círculo Operário da Bahia, juntamente com Frei Hildebrando Kruthaup. Em 1939, Irmã Dulce inaugura o Colégio Santo Antônio, escola comunitária voltada para operários e filhos de operários.

Dez anos depois, ocupa um galinheiro ao lado do Convento Santo Antônio de Salvador para acolher 70 doentes. Em 1959, é instalada oficialmente as Obras Sociais Irmã Dulce (Osid) e no ano seguinte é inaugurado o Albergue Santo Antônio.

 Irmã Dulce
Irmã Dulce – Acervo Irmã Dulce

Celebração

O Santuário de Irmã Dulce, em Salvador, ao lado da sede das Osid permanecerá aberto durante toda noite de sábado (12) e a madrugada de domingo para a vigília à espera das canonizações que o Papa Francisco presidirá no Vaticano.

Junto com a santa brasileira, serão canonizados os beatos John Henry Newman (1801-1880), cardeal, fundador do Oratório de São Filipe Néri na Inglaterra; Giuseppina Vannini, Madre Josefina (1859-1911), italiana, fundadora das Filhas de São Camilo; a Maria Teresa Chiramel Mankidiyan (1876-1926), indiana, fundadora da Congregação das Irmãs da Sagrada Família; e Margherita Bays (1815-1879), suíça, da Ordem Terceira de São Francisco de Assis.

A primeira missa em honra à Santa Dulce dos Pobres ocorrerá em Roma na igreja San’t Andrea della Valle, segunda-feira(14), 24 horas depois da canonização. No dia 20 de outubro, domingo, em Salvador, haverá a celebração pela canonização da Santa. Será no estádio de futebol Arena Fonte Nova, com abertura dos portões ao meio-dia. Os ingressos gratuitos estão à disposição nas diversas paróquias da Arquidiocese de Salvador e começaram a ser distribuídos no início deste mês.

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Edição: Liliane Farias Tags: CANONIZAÇÃOIRMÃ DULCEMULTIMÍDIA

Natal: Missa campal em homenagem à padroeira de Natal reúne milhares de fiéis na Pedra do Rosário

Por G1 RN

 

Muitos fiéis passaram a noite e madrugada em vigília, à espera da imagem de Nossa Senhora da Apresentação. — Foto: Marksuel Figueredo/Inter TV Cabugi

Muitos fiéis passaram a noite e madrugada em vigília, à espera da imagem de Nossa Senhora da Apresentação. — Foto: Marksuel Figueredo/Inter TV Cabugi
Muitos fiéis passaram a noite e madrugada em vigília, à espera da imagem de Nossa Senhora da Apresentação. — Foto: Marksuel Figueredo/Inter TV Cabugi

Imagem de Nossa Senhora da Apresentação chegou à Pedra do Rosário após procissão fluvial — Foto: Marksuel Figueredo/Inter TV Cabugi

Imagem de Nossa Senhora da Apresentação chegou à Pedra do Rosário após procissão fluvial — Foto: Marksuel Figueredo/Inter TV Cabugi
Imagem de Nossa Senhora da Apresentação chegou à Pedra do Rosário após procissão fluvial — Foto: Marksuel Figueredo/Inter TV Cabugi

Segundo a Arquidiocese de Natal, cerca de 20 mil pessoas participaram da celebração, que começou ainda na noite da terça (20). Muita gente virou a madrugada em vigília à espera da imagem da santa, em demonstração de fé e devoção à Nossa Senhora da Apresentação.

Milhares de fiéis foram à Pedra do Rosário, no Paço da Pátria, homenagear Nossa Senhora da Apresentação, padroeira de Natal — Foto: Canindé Soares

Milhares de fiéis foram à Pedra do Rosário, no Paço da Pátria, homenagear Nossa Senhora da Apresentação, padroeira de Natal — Foto: Canindé Soares
Milhares de fiéis foram à Pedra do Rosário, no Paço da Pátria, homenagear Nossa Senhora da Apresentação, padroeira de Natal — Foto: Canindé Soares

Curiosidade

A imagem da santa padroeira de Natal é saudada pelos fiéis ainda na madrugada, assim que desembarca da procissão fluvial. O fato curioso é que, apesar de ser chamada de Nossa Senhora da Apresentação, a imagem que é venerada é, na verdade, a imagem de Nossa Senhora do Rosário.

Na capital potiguar, a santa ganhou o nome de Nossa Senhora da Apresentação porque foi encontrada por pescadores às margens do Rio Potengi no dia 21 de novembro de 1753. Pelo calendário católico, esta é a data em que se apresenta a mãe de Jesus no Templo, daí o nome de Nossa Senhora da ‘Apresentação’.